Domingo, Abril 27, 2008
Quarta-feira, Março 12, 2008
Declaração pós-moderna III
Sexta-feira, Março 07, 2008
Há uma hora há uma hora certa
Do alento
Do tédio
Há dias que crescem desalentados, pastosos, como que toldados pelo sarro do tempo. O corpo resiste e faz-se espera. Espera-se que o dia passe, imagina-se um fast forward que nos leve depressa a um daqueles momentos em que entramos no tempo porque não lhe contamos os minutos. Compra-se o jornal da sexta-feira, toma-se o café da tarde, olha-se a mesma paisagem. Na esplanada do café, as mesmas pessoas e as mesmas conversas: o futebol, os (des)arranjos do governo, a áfrica colonial. Ensaia-se uma sessão de fotografias no porto de abrigo que se revela pouco produtiva. O vento dificulta a focagem e os olhos, também ele pastosos, têm dificuldade em descobrir o insólito naquele quadro. Fotografa-se a paisagem, pescadores quase imóveis à espera que o fio denuncie o engano de um peixe e um barco que chega ao porto. Naquele quadro, para além do ar, ele parece o único ponto em movimento. Olho-o e espero que se aproxime. As gaivotas ficam frenéticas à sua volta.
Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008
A origem da tragédia (parte 3)
Nos bailes e nas ruas, o ritual havia já recomeçado e os corpos incontidos abandonavam-se de novo a uma dança desmedida. Muitos já não viam a cama há dias, testando a sua resistência ao cansaço e à loucura. Eram guerreiros épicos que, na sua afirmação vibrante, adiavam a quarta-feira de cinzas e a morte.
Salvador estremeceu na cama e levantou-se num sobressalto. No avesso daquela noite espantada, alguma coisa o inquietou. Com o seu passo desalentado, saiu de casa e seguiu como um barco que cumpre o seu destino. Era um homem só, só com o lodo, agastado por um estômago às voltas. Impelido pela escuma que lhe corria no sangue desde aquele dia, subiu lentamente a ladeira, em direcção ao Sítio. À medida que ia vencendo os degraus, ia deixando lá em baixo, à altura do mar, o grito vital dos mascarados e da música. Aos poucos, aquela gente foi-se transformando em pequenos pontos insurrectos que giravam numa roda livre. Eles não sabem que o mar pode levar a alegria a um homem para sempre.
Chegou ao Sítio e seguiu para junto do miradouro. Viu o mar debaixo de si, numa ondulação apaziguada, e aqueles pontos insubordinados num movimento lascivo, sem finalidade e sem redenção. Eu é que devia ter ficado no lugar do rapaz. Parecia que tinham roubado a força às ondas. Eles não sabem. O mar os leva… Não conseguindo suportar mais o peso daquele corpo curvado, os seus pés libertaram-se do chão.
Lá em baixo, com o seu grito vital, os mascarados adiavam a quarta-feira de cinzas e a morte.
A origem da tragédia (parte 2)
A origem da tragédia (parte 1)
Já a manhã se estendia sobre o mar, e o silêncio da noite ainda não se tinha cumprido. É assim desde que as marés trocam o peixe pelos homens. No carnaval, a lógica dos dias é desconstruida por um impulso vital que deve vir do sangue e do génio desta gente. Ou do hálito fértil do mar. Rompendo a virgindade matinal, os mascarados assomavam-se às ruas como barcos esquecidos do seu norte, dispersos nos passos e nas vontades. Eram corpos exaltados que prolongavam na rua a dança cáustica dos bailes. Espíritos inconformados que não consentiam a paz. Ainda o silêncio da noite não se tinha cumprido, e já nas ruas ressoavam os acordes dissonantes das vozes, das marchas, das bandas infernais e dos carros alegóricos que se preparavam para o cortejo. Era terça-feira de carnaval e, na nazaré, o ritual repetia-se. Suspendia-se o ritmo cadenciado dos relógios e da vida para se encenar o caos, o tempo primordial anterior ao destino.
Cumprindo a promessa de um ano inteiro, os grupos começavam a sua marcha, exibindo os carros, os fatos, o atrevimento e a alienação eufórica. Como é costume, não foi preciso muito tempo para que desaparecesse qualquer sinal de ordem e triunfasse a indisciplina de uma amálgama de ensaiados. Uma combinação de cores, ânimos e personagens improváveis que só encontrava espelho no riso louco e nos aventais festivos das nazarenas.
Nada como a gente bailar, dizia uma mulher rodando as saias, que esta vida são dois dias e o carnaval são três. Falava sem um destinatário definido, talvez para ela mesma ou para as pessoas imóveis que lhe admiravam a espontaneidade. Era a Júlia, uma das figuras mais exultantes da praia, a quem todos reconheciam o poder de transformar as dores em voltas das suas saias de roda. Tinha-lhe morrido um filho no mar, ainda moço, muito antes de poder cumprir a promessa de ser arrais. Foi numa terrível safra em que o mar arrastou o bote do ti Salvador para o Lago das Viúvas e o mergulhou nas correntes, levando dois homens e o rapaz. Hás-de ver, mãe, um dia ainda hei-de tomar nas mãos o destino de um barco. Toda a gente há-de ver um carregamento de peixe sem igual na praia. Às vezes vinham-lhe à cabeça estas frases enquanto dançava e ria. Que Deus e o mar assim o queiram. Mas nem Deus segurou o mar naquele dia. Por isso Júlia dançava, dançava e ria muito alto. O seu riso louco era um grito sufocado na garganta. Ai, Júlia, que o mar levou o teu rapaz. As mulheres a correrem a espalhar a morte, a força enraivecida daquele mar ao cair da noite, os gritos arrastados na praia, o choro revoltado, a ausência absoluta, o desalento. É porque não esquecia que rodava sobre si mesma, abandonada ao alento fugaz daquela música e daquelas cores.
Guaranteed
Esta foi a música que ganhou o globo de ouro para a melhor canção original composta para filme. Trata-se de "Guaranteed", criada por Eddie Vedder para o "Into the Wild", de Sean Penn.
Domingo, Fevereiro 10, 2008
cristal
Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
Domingo, Janeiro 06, 2008
Literatura do mundo II
Quarta-feira, Janeiro 02, 2008
Entrega
Quarta-feira, Dezembro 26, 2007
Hortênsias e ervas daninhas
Sexta-feira, Dezembro 21, 2007
Errar a resposta
Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
Literatura do mundo I
Meditações num paredão ao anoitecer II
O caminhada, desta vez, foi rápida, devido à proximidade da hora de jantar. A partir do falatório, o que me ocorreu foram aqueles versos do Gedeão:
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!
Sim, os versos nem são meus e o tema da relatividade do olhar já tem teias de aranha. Não foi uma caminhada muito produtiva, portanto. Mas há explicação: tenho quase a certeza que o frio que estava me congelou o cérebro.
Domingo, Dezembro 09, 2007
Distância
Quarta-feira, Dezembro 05, 2007
Meditações num paredão ao anoitecer
Segunda-feira, Novembro 05, 2007
Confirmação
Quarta-feira, Outubro 24, 2007
De como o tempo passa
Terça-feira, Outubro 16, 2007
Manta de retalhos
Gostamos de alguém (penso eu, porque nesta coisas estamos sempre a mentir) pela visão que temos do conjunto de "retalhos" que formam a pessoa. Mas há os diversos momentos em que a olhamos pormenorizadamente. Nessas alturas, encontramos retalhos que achamos preciosos, raros, que realçam a beleza do conjunto. Mas, como nas mantas, geralmente há sempre um ou mais retalhos que saltam fora do padrão estabelecido e que quebram a harmonia do todo. Se nos fixarmos muito neles, deixaremos de conseguir ver a beleza da manta; se afastarmos um pouco o olhar, talvez vejamos que não são suficientes para quebrar o encanto da mescla de cores e de texturas. Segunda-feira, Setembro 24, 2007
Contrastes, tragédia, verdade - e nazaré
Terça-feira, Setembro 04, 2007
Encontrei mais uma pérola da arte urbana e da desconstrução linguística. As circunstâncias em que a vi foram tão boas que a mensagem serviu-me para confirmar uma suspeita: eu e o meu companheiro de viagem já desconfiávamos que tinhamos chegado ao lugar que a frase indica, mas com a sua leitura tivemos a certeza.
Precipício
Poderíamos ter um fio de trapézio a unir as duas margens, mas a dificuldade manter-se-ia. É que a rede faltar-nos-ia sempre, e o equilíbrio é coisa difícil, mesmo para os mais treinados.
O estrangeiro
Quinta-feira, Agosto 16, 2007
Miguel Torga - centenário do nascimento
Prelúdio
Reteso as cordas desta velha lira,
Tonta viola que de mão em mão
Se afina e desafina, e donde ninguém tira
Senão acordes de inquietação.
Chegou a minha vez, e não hesito:
Quero ao menos falhar em tom agudo.
Cada som como um grito
Que no seu desespero diga tudo.
E arrepelo a cítara divina.
Agora ou nunca - meu refrão antigo.
O destino destina,
Mas o resto é comigo.
Miguel Torga, In Orfeu Rebelde
Domingo, Agosto 05, 2007
A queda II
- Quero fazer tudo contigo. Comprar uma casa, um cão, ter um filho, tirar fotografias na torre eiffel, visitar as ilhas gregas...
- Sim... E que faremos quando já não estremeceres com o meu corpo?
Quarta-feira, Agosto 01, 2007
A queda
- O nosso amor é maior que tudo. Nada nem ninguém poderá separar-nos.
- Nem será preciso, amor. Trataremos disso sozinhos.
Sexta-feira, Julho 13, 2007
Os poetas - navio de espelhos
Do cd Os poetas, o "Navio de espelhos" do Mário Cesariny com música do Rodrigo Leão e em vídeo. Um conseguido encontro entre poesia, música e imagem em movimento.

