Domingo, Abril 27, 2008

De quantos sóis é feita uma tempestade?

Quarta-feira, Março 12, 2008

Declaração pós-moderna III


Já há muito tempo que não recolhia pérolas das declarações feitas em espaço público. Esta é daquelas que não se arrisca a passar despercebida, a dissipar-se na sujidade dos muros. É gritante e categórica.
O que é que ela contribui para a análise geral do fenómeno amoroso pós-moderno? Não sei bem, mas talvez a sua fecundidade esteja em mostrar que na pós-modernidade amorosa ainda há espaço para algum revivalismo romântico. Ou pelo menos que ainda não somos positivos o suficiente para nos livrarmos definitivamente da ilusão.

Sexta-feira, Março 07, 2008

Há uma hora há uma hora certa

Mais um vídeo feito a partir de uma das faixas do álbum "Os Poetas". "Há uma hora há uma hora certa", escrito e interpretado por Mário Cesariny e musicado, entre outros, por Rodrigo Leão:

Do alento

Mudei de novo a cara deste blog. Voltei à candura do branco, juntei-lhe a volúpia dos tons de cereja e de violeta e actualizei os links propostos. A bonita imagem que acompanha o título é da autoria de Ricardo Lourenço e foi encontrada aqui: http://olhares.aeiou.pt/cafe_com_leite/foto1793266.html
Às vezes são precisas pequenas mudanças para fazer reviver o alento.

Do tédio


Há dias que crescem desalentados, pastosos, como que toldados pelo sarro do tempo. O corpo resiste e faz-se espera. Espera-se que o dia passe, imagina-se um fast forward que nos leve depressa a um daqueles momentos em que entramos no tempo porque não lhe contamos os minutos. Compra-se o jornal da sexta-feira, toma-se o café da tarde, olha-se a mesma paisagem. Na esplanada do café, as mesmas pessoas e as mesmas conversas: o futebol, os (des)arranjos do governo, a áfrica colonial. Ensaia-se uma sessão de fotografias no porto de abrigo que se revela pouco produtiva. O vento dificulta a focagem e os olhos, também ele pastosos, têm dificuldade em descobrir o insólito naquele quadro. Fotografa-se a paisagem, pescadores quase imóveis à espera que o fio denuncie o engano de um peixe e um barco que chega ao porto. Naquele quadro, para além do ar, ele parece o único ponto em movimento. Olho-o e espero que se aproxime. As gaivotas ficam frenéticas à sua volta.
Nestes dias, sou uma gaivota à espera de barco.

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

A origem da tragédia (parte 3)

Salvador não ouviu. Arrastou o seu corpo curvado até ao quarto e deitou-se sobre a cama. Era um corpo inquieto a tentar apaziguar-se. Fechou os olhos cansados e deixou-se ficar no escuro, receoso de que um qualquer feixe de luz atravessasse o lodo que trazia no estômago desde aquele dia. Foi o mar, a força diabólica do mar, que, naquele fim de tarde, impregnou o seu sangue de limo e curvou o seu corpo para sempre. Não conseguia esquecer. Não podia esquecer. O barco a regressar carregado de peixe, as histórias que haveriam de contar, a imagem crescente da praia. Foi o diabo que mudou o mar naquele dia. O barco a ser arrastado e a virar-se sobre as correntes, a luta dos homens contra o mar, a água sufocante, os corpos resignados dos companheiros, a fragilidade funesta do rapaz. Eu é que devia ter ficado no lugar do rapaz. As pessoas a acorrerem à praia, os gritos lancinantes das mulheres, a impotência dos seus braços de homem. O mar os cria, o mar os leva. O mar os leva…
Nos bailes e nas ruas, o ritual havia já recomeçado e os corpos incontidos abandonavam-se de novo a uma dança desmedida. Muitos já não viam a cama há dias, testando a sua resistência ao cansaço e à loucura. Eram guerreiros épicos que, na sua afirmação vibrante, adiavam a quarta-feira de cinzas e a morte.
Salvador estremeceu na cama e levantou-se num sobressalto. No avesso daquela noite espantada, alguma coisa o inquietou. Com o seu passo desalentado, saiu de casa e seguiu como um barco que cumpre o seu destino. Era um homem só, só com o lodo, agastado por um estômago às voltas. Impelido pela escuma que lhe corria no sangue desde aquele dia, subiu lentamente a ladeira, em direcção ao Sítio. À medida que ia vencendo os degraus, ia deixando lá em baixo, à altura do mar, o grito vital dos mascarados e da música. Aos poucos, aquela gente foi-se transformando em pequenos pontos insurrectos que giravam numa roda livre. Eles não sabem que o mar pode levar a alegria a um homem para sempre.
Chegou ao Sítio e seguiu para junto do miradouro. Viu o mar debaixo de si, numa ondulação apaziguada, e aqueles pontos insubordinados num movimento lascivo, sem finalidade e sem redenção. Eu é que devia ter ficado no lugar do rapaz. Parecia que tinham roubado a força às ondas. Eles não sabem. O mar os leva… Não conseguindo suportar mais o peso daquele corpo curvado, os seus pés libertaram-se do chão.
Lá em baixo, com o seu grito vital, os mascarados adiavam a quarta-feira de cinzas e a morte.
Outubro 2007

A origem da tragédia (parte 2)

Atravessando aquele rio de corpos endemoninhados, vinha em direcção a ela um homem vestido de preto, cabelo quase branco e pele queimada de quem gastou a vida debaixo do sol. Andava curvado sobre si, num passo arrastado, como se suportasse um peso maior que a alma. Lia-se-lhe nas rugas a longevidade da sua angústia. No meio daquela gente, era uma espécie de espectro que não habitava o mesmo mundo. Assim que o vê, Júlia põe as mãos à cintura e abana a cabeça. Ah Ti Salvador, mas será possível que você nem no carnaval tira essa cara? Venha bailar, homem! Regressado de uma qualquer dor, Salvador olhou-a com a sua pele queimada e o seu passo desalentado. Não lhe respondeu. Devia ter-lhe faltado a força ou a vontade.
Distraído do tempo que tinha andado, o homem entrou em casa e sentou-se numa cadeira da cozinha. A mulher fitou-o, mas ele continuou como se não a visse. O que é que achaste do cortejo? Pareceu-me que este ano não havia carros tão bonitos como o ano passado. Chegaste a ver a nossa neta? Como se não esperasse retorno, a mulher virou costas e continuou o seu trabalho ao fogão. Seguindo o rasto daquela resposta suspensa, o silêncio desceu pelas paredes da casa e alastrou-se. Até que a voz de Salvador ecoou do fundo de um poço. Esta gente pensa que a vida é uma alegria. Mas isto é só tristezas e enganos. Não conhecem a fúria do mar nem a morte. Não sabem que o mar pode levar a alegria a um homem. Levantou-se devagar. Qualquer dia desapareço daqui. Antes que a mulher tivesse tido tempo de lhe dizer, como sempre, que ele não podia andar toda a vida a cismar no mesmo e que estava sempre a apoquentá-la, alguém bateu à porta. Boas noites aos da casa. Pode-se? Era a Júlia. Vinha como um mar de leva, ainda afogueada com os enleios daquele dia. Ouve cá, Preciosa, não me bordavas, num instante, umas florzinhas amarelas neste avental para eu levar hoje para o baile? Era para condizer com o cachené novo que lá tenho. A outra mulher irrompeu num riso e abanou a cabeça, como se tivesse antecipado o pedido. Não há pai para ti… E tu é que fazes bem, não há tristeza que te seque a alma. Salvador ouvia-as do lado de lá da sua ausência. Então, que queres tu? Para que é que a gente há-de andar a chorar? É dançar enquanto cá estamos. Enquanto falava, Júlia levantava os braços e rodava a cintura, como se uma qualquer música a arrastasse obsessivamente. Então e vocês não vão ao baile? Ah, ti Salvador, pegue na sua mulher e vá lá um bocadinho. Salvador levantou os olhos do chão. O seu olhar vinha do lado de lá, prenhe de limos e de nojo. Você não viu o seu rapaz… Não sabe. Você é que pode dançar… As mulheres entreolharam-se num gesto cúmplice, como quem admite que já não é possível trazer aquele homem à vida. A gente não pode fazer nada, por isso temos de nos conformar. É a lei da vida, ti Salvador: o mar os cria, o mar os leva.

A origem da tragédia (parte 1)

A propósito de um post que escrevi há um tempo, e tomando como mote um excerto de Alves Redol, escrevi há uns meses um conto cuja inspiração é a Nazaré e o dualismo trágico que nela reconheço. Reza assim:

"Tudo são contrastes agrestes e vivos. Ou a alegria exfusiante ou a angústia espantada. Ou as cores arrogantes das saias e das blusas, das camisas e das ceroulas, ou o negro cerrado dos lutos profundos. (…) Ou o alarido bizarro duma multidão a exultar ou o silêncio cerrado que só o mar acorda, como a lembrar que é ali que está o pão e a morte." Alves Redol

Já a manhã se estendia sobre o mar, e o silêncio da noite ainda não se tinha cumprido. É assim desde que as marés trocam o peixe pelos homens. No carnaval, a lógica dos dias é desconstruida por um impulso vital que deve vir do sangue e do génio desta gente. Ou do hálito fértil do mar. Rompendo a virgindade matinal, os mascarados assomavam-se às ruas como barcos esquecidos do seu norte, dispersos nos passos e nas vontades. Eram corpos exaltados que prolongavam na rua a dança cáustica dos bailes. Espíritos inconformados que não consentiam a paz. Ainda o silêncio da noite não se tinha cumprido, e já nas ruas ressoavam os acordes dissonantes das vozes, das marchas, das bandas infernais e dos carros alegóricos que se preparavam para o cortejo. Era terça-feira de carnaval e, na nazaré, o ritual repetia-se. Suspendia-se o ritmo cadenciado dos relógios e da vida para se encenar o caos, o tempo primordial anterior ao destino.

Cumprindo a promessa de um ano inteiro, os grupos começavam a sua marcha, exibindo os carros, os fatos, o atrevimento e a alienação eufórica. Como é costume, não foi preciso muito tempo para que desaparecesse qualquer sinal de ordem e triunfasse a indisciplina de uma amálgama de ensaiados. Uma combinação de cores, ânimos e personagens improváveis que só encontrava espelho no riso louco e nos aventais festivos das nazarenas.

Nada como a gente bailar, dizia uma mulher rodando as saias, que esta vida são dois dias e o carnaval são três. Falava sem um destinatário definido, talvez para ela mesma ou para as pessoas imóveis que lhe admiravam a espontaneidade. Era a Júlia, uma das figuras mais exultantes da praia, a quem todos reconheciam o poder de transformar as dores em voltas das suas saias de roda. Tinha-lhe morrido um filho no mar, ainda moço, muito antes de poder cumprir a promessa de ser arrais. Foi numa terrível safra em que o mar arrastou o bote do ti Salvador para o Lago das Viúvas e o mergulhou nas correntes, levando dois homens e o rapaz. Hás-de ver, mãe, um dia ainda hei-de tomar nas mãos o destino de um barco. Toda a gente há-de ver um carregamento de peixe sem igual na praia. Às vezes vinham-lhe à cabeça estas frases enquanto dançava e ria. Que Deus e o mar assim o queiram. Mas nem Deus segurou o mar naquele dia. Por isso Júlia dançava, dançava e ria muito alto. O seu riso louco era um grito sufocado na garganta. Ai, Júlia, que o mar levou o teu rapaz. As mulheres a correrem a espalhar a morte, a força enraivecida daquele mar ao cair da noite, os gritos arrastados na praia, o choro revoltado, a ausência absoluta, o desalento. É porque não esquecia que rodava sobre si mesma, abandonada ao alento fugaz daquela música e daquelas cores.

Guaranteed

Esta foi a música que ganhou o globo de ouro para a melhor canção original composta para filme. Trata-se de "Guaranteed", criada por Eddie Vedder para o "Into the Wild", de Sean Penn.

Domingo, Fevereiro 10, 2008

cristal

Um conjunto de esferas pesadas que oscilam, suspensas por um fio de nylon. O instante de uma geometria perfeita. Esferas que se movem com a harmonia dos bandos de pássaros ou que colidem.
Estou descalça. Há dias em que os meus pés engelham sob a chuva, outros em que queimam sobre brasas. Agarro a pomba e juntas equilibramo-nos no gume da navalha. Sustenho o ar. Levanto os braços para aquietar o corpo e rodo sobre mim mesma.
A pomba voou, não admite apaziguação. A vontade é de voar com ela, mas a terra agarra-me pelos pés. Já devia saber que o nosso elemento não é o ar, mas o lodo.
O sol desmaia e sangra. Nascerá para outros, para mim morreu. A noite entranha-se nas ruas e nas cortinas das casas, insinuando o dia que virá. A pomba, que não voa sempre, virá com ele.
Estou no escuro e seguro um copo de cristal. Está meio cheio de vinho. Caminho descalça entre vultos, adivinhando o chão. Se por força de um qualquer vulto ou de um engano dos meus olhos eu partir o cristal, rasgarei os meus pés descalços sobre os estilhaços.

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

Cristina Branco canta Zeca Afonso - Redondo Vocábulo

Domingo, Janeiro 06, 2008

Literatura do mundo II

"A memória. Ela é quase sempre uma recuperação de imagens imóveis. Porque relembrar o movimento exige um esforço de deliberação. E a memória simplesmente aparece. Mas são imagens que se marcam ou douram de um envolvimento que as transfigura. Um halo, uma ténue neblina. E tudo isso inserido numa certa estação do ano, num certo momento da dia ou da noite. São imagens que se repetem na evocação de certos lugares como se os condensassem e nelas se resumisse ou aglomerasse a vida toda aí vivida. Uma hora de neve, de um gelo na face ao caminhar por uma rua com os beirais das casas pingando a água do degelo. Uma certa hora de Outono com esguios castanheiros a desfolharem-se. Uma certa noite de Verão com uma grande lua a nascer. Um passeio pelo campo com flores silvestres que talvez ninguém mais veja. Memória de uma vida tão cheia do seu nada nesse breve instante que a resume toda. O mlhor de si. Esse nada de si."
Vergílio Ferreira, Escrever

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

Entrega

Bailarinos do Grupo Corpo (Brasil) a dançar uma música do compositor cubano Ernesto Lecuona. Alguém do outro lado do mundo lembrou-me que o mais importante é a entrega. E a entrega, disse, é o movimento que viu numa dança do Grupo Corpo, na qual um bailarino segura a bailarina por debaixo dos braços e fica a rodá-la baixo, rente ao chão, como se fosse cair.
Este vídeo é de uma outra dança do mesmo espectáculo, cujo movimento oscilante entre o roçar o chão e a elevação talvez expresse também o essencial de uma entrega:



Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

Hortênsias e ervas daninhas

Já há bastante tempo que a sua cabeça era um terreno fértil. Nas tardes em que o sol fecundava o mundo, passeava as lindas hortênsias que lhe cresciam na cabeça. Nos dias em que a chuva fertilizava o mar, regava-as para lhes avivar o crescimento. O problema eram as ervas daninhas que também lhe cresciam e ainda não tinha conseguido exterminar. Investigava muito sobre elas e cada vez mais lhes conhecia o perigo: "Em muitas hortas, as ervas daninhas representam um grande problema para as plantas alimentares. Estas ervas disputam com as culturas alimentares os elementos nutritivos, a água, os raios solares e o espaço. As culturas invadidas por ervas daninhas crescem mal e por vezes morrem. Quando são muito densas, as ervas daninhas podem abrigar serpentes, ratos ou pragas. O problema ganha ainda mais importância nas hortas onde não há árvores adultas. Se as ervas daninhas não forem bem controladas desde o início, podem necessitar de mão-de-obra que poderia ter sido melhor utilizada no cultivo de plantas úteis." E cada vez mais sabia por que razão é que elas ainda não tinham sido totalmente exterminadas: " Pode, por outro lado, servir igualmente para proteger a horta da erosão do solo e produzir material de protecção com folhagem seca."
Fonte de infomação sobre ervas daninhas:

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Errar a resposta

Apenas ressalvando o facto de que, em qualquer um dos lados, tanto podia estar um homem como uma mulher, aqui fica este post do Diário (www.pif-paf.blogspot.com) do Tiago Galvão:

Um pequeno passo para a mulher, um tropeção do caralho para o homem:
Há uma grande pressão no «eu amo-te». Depois do primeiro, é impossível fugir ao segundo. A partir daí, é um por dia, um por hora, um por minuto. Começa como necessidade fisiológica, termina como tique nervoso. E é preciso dizê-lo apaixonadamente. Sempre. Daí a pressão. É que há umas horas do dia em que estamos mais apaixonados do que outras.
- Eu amo-te.
- Também.
- Mesmo?
- Mesmo.
- Amas-me como eu sou?
- Sim.
- Quanto?
- Muito.
- Não estás a mentir?
- Não.
- Mentira, o amor não se quantifica.
- Foda-se, eu sabia esta.

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

Literatura do mundo I

Orão, pelo contrário, é uma cidade sem suspeitas, ou seja, uma cidade inteiramente moderna. Não é, pois, necessário precisar a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente no chamado acto do amor ou se entregam a um longo hábito entre dois. Também isso não é original. Em Orão, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, é-se obrigado a amar sem o saber.
Albert Camus, A Peste

Meditações num paredão ao anoitecer II


O caminhada, desta vez, foi rápida, devido à proximidade da hora de jantar. A partir do falatório, o que me ocorreu foram aqueles versos do Gedeão:


Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!

Sim, os versos nem são meus e o tema da relatividade do olhar já tem teias de aranha. Não foi uma caminhada muito produtiva, portanto. Mas há explicação: tenho quase a certeza que o frio que estava me congelou o cérebro.

Domingo, Dezembro 09, 2007

Distância

Plano no entorpecimento das luzes de natal e inquieto-me a medir a distância entre os meus olhos e o mundo.

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Meditações num paredão ao anoitecer


Uma ou duas vezes por semana (ultimamente apenas uma), ao fim da tarde, eu e uma amiga costumamos fazer caminhadas de passo rápido ao longo do paredão e subir toda a encosta que vai até às nossas casas. Entre o sair de casa e o voltar demoramos cerca de 50m-1h. A intenção inicial era fazer corridas. Costumávamos até perguntar uma à outra se sempre íamos "correr". Mas, com o passar do tempo, admitimos a nossa preguiça e, em abono da verdade, começámos a falar de "andada". No fundo, não foi só a preguiça que nos dissuadiu das corridas, mas também o facto de elas não nos permitirem manter grandes conversas. Assim, ficamos com um 2 em 1: andada e conversa durante 1h.
Durante o tempo da andada, falamos de variadíssimas coisas. Das nossas vidas, da dos outros (mas sempre sob a égide da benevolência, estejam descansados :)), do emprego, do desemprego, dos projectos, dos amores e desamores, dos filmes, das viagens, das neuras, das famílias... No meio disto tudo, desembocamos às vezes em reflexões mais ou menos profundas sobre o sentido das coisas e a psicologia humana, numa mistura de teorias científicas, experiência e intuição. Pus-me a pensar que chegávamos quase sempre a uma conclusão sobre alguma coisa, mesmo que provisória e mais ou menos tosca e óbvia, e que poderia partilhar algumas dessas iluminações. Por isso, se as coisas correrem de feição, começo aqui uma rúbrica dedicada precisamente às meditações que fazemos no paredão ao fim da tarde. Como de vez em quando também faço umas caminhadas no paredão pela manhã (umas vezes acompanhada, outras sozinha), talvez também possam surgir as "meditações matinais no paredão".
Ora então, visto já não ir à andada de hoje porque entretanto começou a borraçar, vou até à conversa de ontem. Enquanto eu e a minha amiga falávamos sobre a conduta de um indivíduo, concluimos que não se pode culpar apenas as circunstâncias pelos actos estúpidos que realizamos, por muito adversas que elas sejam, porque isso é colocarmo-nos na posição da criança que não se assume. Ou seja, a personalidade da pessoa não deixa de ser determinante para o modo como age, mesmo em condições difíceis. Daí que, na grande maioria dos casos, nunca se possa desculpar totalmente alguns actos. Por outro lado, também podemos dizer que, independentemente da pernonalidade que temos, no limite todos nós somos capazes de fazer tudo ou quase tudo. Assim, penso que não se pode negar que a conduta é sempre um movimento complexo que resulta da concorrência de, pelo menos, dois factores: da nossa personalidade ou carácter e das circunstâncias que habitamos a cada momento, factores que dificilmente se anulam um ao outro. E, da mesma forma, da genética e do ambiente. No cerne dos nossos actos talvez esteja, então, uma determinada relação ou equilíbrio entre os dois factores, que é diferente de pessoa para pessoa. Se houver uma predisposição para um determinado comportamento, pode nem quase ser preciso haver alguma "força das circuntâncias" para que uma pessoa faça algo; se houver uma aversão forte em relação a um comportamento, possivelmente só numa situação-limite outro alguém faria o mesmo. Daí que, em virtude da sua personalidade, algumas pessoas cedam em condições más e outras não cedam em condições péssimas. E daí que seja tão difícil saber o que é perdoável...

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

Confirmação

H., fica descansado: fiquei a saber de fonte segura que o mundo não vai acabar tão depressa.

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

De como o tempo passa

Este blogue faz hoje dois anos. Não é porque goste particularmente de assinalar datas que estou a mencionar o facto, mas porque reparar nisso fez-me pensar em várias coisas. Por um lado, na velocidade do tempo. Não tenho a sensação de já andar nisto há tanto tempo. Parece-me, aliás, que comecei há poucos dias. Por outro, levou-me a fazer um balanço do que tenho feito (escrito) desde que o comecei. Tal como no aniversário anterior, também neste sinto que não escrevi, ao longo do ano, tanto quanto queria e podia. Ainda relativamente ao conteúdo do blogue, apercebo-me também de que acabou por se desenvolver num sentido um pouco diferente daquele que no seu início eu tinha projectado. Ainda bem, é sinal de que não fiquei fechada numa ideia e de que fui escrevendo de acordo com aquilo que me fez ir pensando e crescendo. Por último, penso no porquê de ter escrito aqui estes dois anos e continuar a querer fazê-lo. Acho que a resposta pode ser encontrada nos dois pontos anteriores: porque escrever é um exercício de pensamento e de crescimento e porque escrever é uma das formas de resistir à passagem devoradora do tempo e à morte.

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Manta de retalhos

Gostamos de alguém (penso eu, porque nesta coisas estamos sempre a mentir) pela visão que temos do conjunto de "retalhos" que formam a pessoa. Mas há os diversos momentos em que a olhamos pormenorizadamente. Nessas alturas, encontramos retalhos que achamos preciosos, raros, que realçam a beleza do conjunto. Mas, como nas mantas, geralmente há sempre um ou mais retalhos que saltam fora do padrão estabelecido e que quebram a harmonia do todo. Se nos fixarmos muito neles, deixaremos de conseguir ver a beleza da manta; se afastarmos um pouco o olhar, talvez vejamos que não são suficientes para quebrar o encanto da mescla de cores e de texturas.

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

Contrastes, tragédia, verdade - e nazaré

Heraclito dizia que a guerra é a mãe de todas as coisas, apontando a tensão entre opostos como o motor do devir. Partindo dessa crença, parece-me que a procura de uma "verdade" ou de uma "essência" das coisas terá de ser feita no âmago intangível dessa zona de tensão onde se confrontam forças universais, como se lê nalgumas cosmogonias e nalguns mitos, ou, numa perspectiva mais antropológica e eminentemente existencialista, a vontade de um sujeito e as cegas contingências do mundo.
É, pois, a tragédia o palco privilegiado desse jogo fatal onde os dados rolam entre Apolo e Hades, entre a luz e a sombra, entre a vontade e o destino, entre a clarividência e a ilusão.
O herói trágico é aquele que tanto mais se aproxima do seu destino quanto mais pensa fugir dele, que desconhece na sua acção a força inexorável do fado, que não sabe que é o seu próprio carácter que dita a sua sorte; ou seja, o homem trágico abriga em si mesmo a força que crê opositora em relação ao seu livre-arbítrio, mas não a sabe íntima ou não a compreende. Nele, coabitam, então, essas duas forças - a força do homem e a força do mundo (dos deuses) -, cuja diferenciação ele falha. No fundo, é um esquizofrénico, porque nunca sabe quando é que a sua vontade interrompe a necessidade do fado, ou quando é que este ilude a sua vontade. A pedra-de-toque dessas duas forças é, portanto, a ilusão. Os deuses produzem a ilusão do sujeito, e este tem de habitá-la para poder agir.
A condição do herói trágico é a do homem que nunca sabe se é agente ou paciente, se esquissa o rumo da sua vida real ou se é o personagem de uma peça cujo desfecho está determinado desde o início.
Se na base do devir está o conflito dos opostos, e se em tal conflito se encena na tragédia, então a tragédia, entendida num sentido lato enquanto a manifestação do irreconciliável jogo de luz/sombra que é a condição da nossa relação com o mundo, será a terra fértil donde o fundo originário das coisas poderá brotar. Mas, sendo tal fundo uma penumbra opaca e intangível, só lhe poderemos aceder na medida em que não mergulharmos os olhos directamente nele, sob pena de, querendo ver tudo, acabar por não ver nada, como um Orfeu que perde a sua Eurídice.
A "verdade", neste sentido, situar-se-á no ponto arquimédico entre os desejos do homem e os acontecimentos do mundo, entre o devir das coisas e aquilo que subjaz à mudança. Ponto tão essencial quanto distante, que, como um buraco negro, atrai os olhares e dilacera os mais penetrantes.
No culminar deste percurso, lembro-me, quase como ilustração do que foi dito, da Nazaré. Desde que a minha cabeça começou a funcionar de forma condizente com uma (de)formação filosófica, ou talvez até já desde o tempo em que a intuição possivelmente me revelava melhor a vida, olho a Nazaré como um espelho do trágico e, assim, como um cenário onde avulta uma verdade qualquer, qualquer coisa de primitivo, como um duelo primordial entre deuses. Para além da superficialidade e da hipocrisia que frequentemente assomam nos gestos e nos discursos, há na gente nazarena uma autenticidade que deve vir do mar e do génio. É como se a mentira, o engano e a exasperação tomassem parte da autenticidade desta gente e fossem, por isso, também uma forma de verdade.
É neste modo de ser dos nazarenos, no qual se reconcilia a força fatal do mar e a exuberância vital do carnaval, que creio vislumbrar-se o essencial da tragédia, descrito por Alves Redol desta forma perfeita:
"Tudo são contrastes agrestes e vivos. Ou a alegria exfusiante ou a angústia espantada. Ou as cores arrogantes das saias e das blusas, das camisas e das ceroulas, ou o negro cerrado dos lutos profundos. Ou a abundância das grandes mantas de sardinha ou os meses sem fim, com raras sombras de peixe. Ou o alarido bizarro duma multidão a exultar ou o silêncio cerrado que só o mar acorda, como a lembrar que é ali que está o pão e a morte." Alves Redol, Revista Imagem, 1958

Terça-feira, Setembro 04, 2007

Encontrei mais uma pérola da arte urbana e da desconstrução linguística. As circunstâncias em que a vi foram tão boas que a mensagem serviu-me para confirmar uma suspeita: eu e o meu companheiro de viagem já desconfiávamos que tinhamos chegado ao lugar que a frase indica, mas com a sua leitura tivemos a certeza.

Precipício


Se tirarmos os dois pés do chão firme, arriscamo-nos a não conseguir saltar longe o suficiente e a cair no precipício. Porém, se não levantarmos ambos os pés, nunca poderemos ultrapassar o precipício e encontrar o chão firme do outro lado.
Poderíamos ter um fio de trapézio a unir as duas margens, mas a dificuldade manter-se-ia. É que a rede faltar-nos-ia sempre, e o equilíbrio é coisa difícil, mesmo para os mais treinados.

O estrangeiro

O estrangeiro é o homem que nunca se situa, que nunca assenta os pés num determinado ponto do chão. É o homem que levita acima de qualquer comprometimento. Perante a indiferença do mundo - o único axioma que aceita - não tem causas nem motivos para além da convicção de que não há diferença absolutamente nenhuma entre matar e amar. A única coisa que ousa habitar é o momento, porque é a única coisa real. Tudo o mais são ilusões pueris. Por isso, não sabe se ama, só sabe que deseja estar com alguém nalguns momentos; não sabe por que razão mata, só sabe que, num determinado minuto indecifrável, premiu o gatilho repetidamente.
O estrangeiro é o estrangeiro do mundo, no mundo, e, mais tragicamente, de si mesmo.

Quinta-feira, Agosto 16, 2007

Miguel Torga - centenário do nascimento


Prelúdio

Reteso as cordas desta velha lira,
Tonta viola que de mão em mão
Se afina e desafina, e donde ninguém tira
Senão acordes de inquietação.

Chegou a minha vez, e não hesito:
Quero ao menos falhar em tom agudo.
Cada som como um grito
Que no seu desespero diga tudo.

E arrepelo a cítara divina.
Agora ou nunca - meu refrão antigo.
O destino destina,
Mas o resto é comigo.

Miguel Torga, In Orfeu Rebelde



Domingo, Agosto 05, 2007

A queda II

- Quero fazer tudo contigo. Comprar uma casa, um cão, ter um filho, tirar fotografias na torre eiffel, visitar as ilhas gregas...
- Sim... E que faremos quando já não estremeceres com o meu corpo?

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

A queda

- O nosso amor é maior que tudo. Nada nem ninguém poderá separar-nos.
- Nem será preciso, amor. Trataremos disso sozinhos.

Sexta-feira, Julho 13, 2007

Os poetas - navio de espelhos

Do cd Os poetas, o "Navio de espelhos" do Mário Cesariny com música do Rodrigo Leão e em vídeo. Um conseguido encontro entre poesia, música e imagem em movimento.