A análise que Zizek faz de
Vertigo, de Alfred Hitchcock:
“A ideia da mulher fatal possui-nos por completo. Afinal, essa imagem, a imagem fascinante da mulher fatal, representa a morte. O fascínio da beleza é sempre o véu que encobre um pesadelo. Como a ideia de uma criatura fascinante na qual, se nos aproximarmos muito, vemos podridão e vermes por todo lugar.
O maior dos abismos não é um abismo físico, mas o abismo das profundezas de uma outra pessoa. É aquilo que os filósofos descrevem como a noite do mundo. Quando olhamos para uma pessoa, o que vemos é o abismo dentro dos seus olhos. É essa é a verdadeira espiral que nos arrasta para dentro de dela.
Scottie, sozinho, destruído, não consegue esquecê-la (Madeleine, a misteriosa mulher por quem se apaixonou). Ele deambula pela cidade à procura de uma mulher parecida e descobre uma rapariga simples, comum, até mesmo vulgar. (…) A rapariga recém encontrada parece e age como Madeleine, a bela fatal. Descobrimos que ela é Madeleine. Ficamos a saber que o amigo de Scottie, que contratou Scottie, também contratou essa mulher, Judy, para interpretar Madeleine numa trama diabólica para matar a Madeleine real, sua esposa, e ficar com sua fortuna. (...) Temos ali a identidade de Madeleine, ou melhor, de Judy em toda a sua tensão trágica.
Scottie fornece o fundo sombrio para o fascinante perfil de Madeleine no restaurante Ernie. Vemos Scottie envergonhado, temeroso de olhá-la directamente, como se estivesse a ver a substância de seus sonhos, mais real para ele, de certa forma, do que a realidade da mulher que está atrás de si.
Um sujeito é algo parcial, uma face, algo que vemos. Atrás dele, há um vazio, um nada. E claro que nós espontaneamente tendemos a preencher esse nada com as nossas fantasias sobre a riqueza da personalidade humana, etc.
Confrontar a subjectividade significa confrontar a feminilidade. A mulher é o sujeito. A masculinidade é uma farsa. A masculinidade é uma fuga da dimensão de pesadelo, radical e aterradora da subjectividade.
(…) Quando Judy, vestida mais uma vez como Madeleine, atravessa a porta, é como se a fantasia se realizasse. E temos, é claro, um nome perfeito para uma fantasia realizada: "pesadelo". A fantasia realizada… O que isso quer dizer? Sem dúvida, ela é sempre sustentada por uma violência extrema. A violência, no caso de Scottie, é a modelagem brutal de Judy em Madeleine. É verdadeiramente um processo de mortificação, que também é a mortificação do desejo da mulher. Como se, para tê-la, para desejá-la, para ter relações sexuais com ela, Scottie tivesse que mortificá-la, transformá-la numa mulher morta. (…) Scottie não está realmente fascinado por ela, mas por toda a cena, pela encenação. Ele olha em volta, conferindo se as coordenadas fantasmáticas estão realmente ali. Neste ponto, quando a realidade se encaixa completamente na fantasia, Scottie está finalmente pronto para consumar a tão adiada relação sexual. O resultado dessa violência é a coordenação perfeita entre fantasia e realidade. Uma espécie de curto-circuito directo.”