Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Ninguém se aproxima de ninguém se não for num murmúrio,
entre flores altas: camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue - as veias da garganta contra a boca.

Herberto Helder, Poesia Toda

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Soulsavers, Broken (2009)


Voz: Mark Lanegan & Mike Patton


Voz: Mark Lanegan

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

A mim o que me apetece é dançar

O guarda-fatos do mar entreaberto para a noite
pergunta-me se amo
e é toda uma paisagem de arcos flamejantes
deslocando-se a oeste
o castelo perdido entre duas visões
o cavaleiro descendo a falésia
depois de tantos anos tantas fábricas tantos
arquitectos de amor fitando o espaço

no alto das arquibancadas o rapaz
que lindo
encarna a vitoriosa lividez do dia

A mim porém o que me apetece é dançar
Dar um salto comigo
de forma a que não me evole feito fumo
nem resvale às profundas feito nada

Isso
o reino de Pràtazul
a linha de água
que suporta e separa e contém os dois mundos
e ondula

Mário Cesariny, A Cidade Queimada

Sábado, Outubro 17, 2009

Gatos Comunicantes

Mário Cesariny. [Poema], 1964 Jun., Paris, [a] Vieira da Silva, [s.l.]. [Autógrafa]

POEMA
Para a Maria Helena

Alto como a presença verdadeira
dos namorados descendo a falésia
este rio trazido à torre de Saint Jacques
punhal cravado para cima sobre um chão que fica
à espera de chegar ao outro mundo de noite
já que de dia não vem não vem (Deus como os mais)
este rio deitado construído ensonado
trazido aqui por Descartes daqui levado por Stendhal
não vai dar nem sequer para uma groselha comigo
quanto mais para o encontro com Deus que é católico
e tem mais vácuo nos dentes que a baleia nas tripas

No entanto disse alto e verdadeiro amor

É que isto ainda dá horas ainda é tempo de querer
ainda é meia-noite as árvores ainda
não destruíram tudo o que a este dia respeita
barco ébrio de tanta torre bebida
escuna medrosa em cada vigia ao longe
navio dos amantes que ainda espreitam para dentro de um ouvido o que
a passagem da terra faz ao mar, lá em baixo
barco homem que avança pelos telhados e se ri à hipótese de haver chão,
lá em baixo
e risca lentamente o ar com o braço
numa forma de música de concerto

Paris, Junho 64
Mário
(Este será o «Poema III», de A Cidade Queimada.)

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Mariana Aydar, Palavras Não Falam

É o primeiro vídeo do álbum "Peixes Pássaros Pessoas" da Mariana Aydar, referente ao tema “Palavras Não Falam”. O branco que serena os olhos é o de Salar, o maior deserto de sal do mundo, na Bolívia.


Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Prolegómenos a todo o ano lectivo futuro


- A escola fica dentro de uma quinta ou, antes, é a própria quinta. Ao seu redor, estende-se uma vasta paisagem de terra, animais, tractores e árvores de fruto. Quem já lá trabalha há uns anos diz que às vezes nem sente que está ali a trabalho e garante que a visão e os cheiros rurais funcionam como autêntica terapia de relaxamento, capaz de bater quaisquer massagens shiatsu, águas termais ou pedras quentes.

- A entrada na escola permite-nos experimentar verdadeiras epifanias: a imagem do nosso carro estacionado ao lado de uma máquina agrícola antiga, a cabeça do cavalo que quase nos toca quando saímos do carro, o cheiro da cavalariça, o inesperado mugir dos bois…

- O senhor da reprografia é uma espécie de máquina multifunções. Atende o telefone, tira fotocópias, trata das requisições de material, é o guardião dos livros de sumários e das componentes não-lectivas, trata das senhas de almoço… O segredo deve estar no seu nome, que, não fora o segundo apelido, seria igualzinho ao de uma corajosa personagem histórica de Portugal.
Para além da sua prontidão, também já pude perceber o seu talento para escalas decrescentes: “Ah, vai ter esta turma? É boazita! Pronto, não é má… Ah, espere, tem lá os alunos x e y! Hiii, eles são terríveis, já me tenho chateado com eles. Olhe, podia sempre ser pior…”

- É-nos explicado que há portas de sala de aula sem placa de identificação porque os alunos as arrancaram no final do ano lectivo passado.

- Informam-nos que os professores podem munir-se do seu saco plástico e fazer a sua apanha da fruta privada.

- Informam-nos que as vindimas serão feitas pelas turmas de agricultura segundo uma escala, pelo que, se a turma a que se for dar aula estiver no seu horário de apanha da uva, deve o professor equipar-se com umas galochas e acompanhar os pupilos.

E, com tudo isto, as aulas começam daqui a pouco…

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

He's back

A (bela) notícia do dia na blogosfera: Pedro Mexia e a sua viciante escrita agridoce estão de volta no novíssimo blogue Lei Seca.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

Olha que dois...

Caetano e Chico:







Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Olha que duas...

Mariana Aydar e Mayra Andrade:










Quinta-feira, Agosto 06, 2009

O hipocentro da loucura



Passo horas a esta janela
a ver o mar.
Vou todos os dias
para a frente dela
e fico à espera que surjam imagens a cores
que parecem quase tão reais
quanto as da televisão.
Já aconteceu a janela avariar
porque insisti em abri-la.
Ficou dois dias sem dar imagens,
baça de todo,
diz o técnico que foi da corrente de ar.
Nesses dias, tentei retomar o
velho ofício da renda, mas desconfio
que devem ter inventado outra maneira de contar
porque nunca mais acertei
a matemática do caseado.
Até a renda já deve ser feita pelos computadores.
Acabei por ensaiar alguns passos de dança
ao som da sonata de Shubert que
às vezes toca na minha cabeça e
um sorriso como o da menina
que me olha do alto da cristaleira.
Ainda estou para saber como apareceu ali
dentro daquela moldura
com aquele vestido de chiffon
e os olhos complacentes de amêndoa.
Desconfio que foi o gato que a trouxe da rua
para me fazer companhia quando ele
parte em viagens de negócios.

Hoje está amarelo porque choveu.
Quando o tempo está seco e há algum sol
fica salmão, às vezes vermelho,
mas nunca azul,
nunca o mar está azul como dizem.
Deve ser um daqueles mitos que nem
a tecnologia conseguiu derrubar.
Agora que já não chove, vê-se
o verde azeitona da areia ainda molhada
e algumas pessoas a voar
com as gaivotas.
Dá gosto ver o modo como elas
aterram suavemente na areia e
se curvam a oferecer
o dorso e as asas.

Chamam-me louca.
Do lado de lá da janela
eu sou a interrupção na ordem do mundo,
a ridícula imagem virtual projectada
privada de gravidade e de substrato.
Quando ainda tinha paciência
para os livros, li algures
que a loucura é o exercício
da extrema lucidez.
O mar que vejo por esta janela,
e que é amarelo, às vezes salmão
ou vermelho,
é tão real como um qualquer mar azul
sugerido aos olhos por um truque
de reflexos e de luz.
As imagens que estão em movimento
que mais são
senão fotografias emolduradas
pelas qualidades dos nossos olhos?
Por que sons posso afirmar a sonata
senão por aqueles que ouço?
E o que posso dizer do gato
quando não o vejo?

Terça-feira, Julho 14, 2009

Sugestão da casa...


Two Days in Paris

Ainda Rodrigo Leão

É só para dizer que o cd finalmente já cá canta. E, já agora, aproveito para passar um blush neste blogue com duas provas da genialidade do álbum:


Sábado, Julho 04, 2009

"A Mãe", de Rodrigo Leão

Saiu no dia 22 de Junho. Mais uma obra de arte, composta por 17 músicas inéditas, daquele que Almodóvar, muito justamente, considera "um dos mais inspirados compositores do mundo". Mais informações aqui.

Domingo, Junho 28, 2009

Deolinda e Cristina Branco no Castelo de S. Jorge

Os Deolinda estiveram na Festa do Fado, que decorreu, como sempre, no Castelo de S. Jorge, e convidaram a Cristina Branco. Foi no passado dia 20 que este felicíssimo encontro aconteceu. Parece que o objectivo era mostrar alternativas ao fado tradicional. Felizmente há o Youtube:

Ana Bacalhau e Cristina Branco cantam o tema "Margarida", que integra o último álbum da Cristina:


Cantam "Fado Castigo", um tema dos Deolinda:


Cristina Branco canta "Lisboa não é a Cidade Perfeita", uma linda música dos Deolinda que cai como uma luva na sua voz:

Domingo, Junho 21, 2009

A invenção da noite II


Apertamos a música no corpo,
sufocamos acordes entre as ancas e
os tendões
e atravessamos a noite dos insectos.

Frágeis contornos de luz
resistem no palco,
a desenhar a noite e o espaço.
Ao centro, a doce cantora ondula
na sua liquidez subversiva e
inventa os tons impossíveis de sereia
que nos enlaçam as asas.
Entre ela e nós, uma ladeira de luz impura,
um jogo perverso de voz que se entrega
como virgem no seu canto inicial
e nos consome inteiros,
asas-nojo-quitina.

Rendemo-nos à tessitura e ao compasso
da sedução felina:
o apelo trágico das notas graves;
a elevação do corpo numa escala sustenida.
E assim,
entre a noite que os sons inventam
e a luz que nos sustém,
improvisamos um voo difuso de
insectos de olhos feridos.
Pequenos bichos amelódicos,
em distorção e em contratempo.

Sábado, Junho 20, 2009

The Dying Animal / Elegy




Elegy (2008), baseado na novela The Dying Animal (2001), de Philip Roth.

São o filme e o livro mais bonitos e penetrantes que vi e que li nos últimos tempos.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

We sell Vatican


À porta de uma loja de "souvenirs", junto ao Vaticano. Possivelmente a tónica do letreiro está no "euro"... Seja como for, as duas primeiras linhas é que dizem uma grande verdade. E quem diz a verdade...

Terça-feira, Maio 19, 2009

Músculo domesticável

Eu e a Tereza lançámo-nos ao desafio de fazer um poema a duas mãos - a minha, dextra, e a dela, canhota :). O resultado é esta produção intercontinental, que mistura português de Portugal e português do Brasil, pinta, tira, frankenstein e filho pródigo:


Leopardo, águia ou zebra.
Três pintas a mais ou duas tiras a menos
de nada interferem no desejo,
contanto que o abraço possua
o branco envolvente dos coelhos.

Pinta é contingência redonda que
não altera a geometria do sangue
nem o calor do pêlo;
tira é traço abstracto,
vestígio da cálida energia que perpassa a derme,
das bolhas que implodem nos órgãos
e soltam pelos ares a exalação afetuosa.

Todo o bicho é domesticável e sabe
dar a si contornos dormentes.
O mesmo que há pouco figurava
num quadro dantesco,
no papel de predador sádico cravado na presa,
adormece agora no langor do colo quente
e do fogo lento da lareira.

É o verde da manta e o laranja que consome
a madeira que lhe entorpecem
os tendões e as orelhas.
Mas o branco,
o exacto branco dos coelhos,
é a união de todas as cores.
E se é felpudo ao toque é por causa das nódoas
que oscilam sob as mãos
e as seduzem num caminho a trilhar.

Não há pinta nem tira num abraço branco,
mas uma explosão com todas as cores
que aperta o corpo
em rugas e põe tira na pinta
e pinta na nódoa.

Sábado, Maio 16, 2009

Minguante nº 14



Acaba de sair a Miguante nº 14 com o tema "fim". Com ele, a revista entra numa "suspensão criogénica", que esperamos que seja breve. Para aceder aos textos, cliquem na imagem.

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Poetas-filósofos: António Franco Alexandre (4)

há uma terra dentro das palavras,
o erro musical.
saberás que a inguagem
não começou ainda

o seu passo perdulário,
não há, no mundo, modos
de dizer o movimento e o imóvel,
o surgir repetido, e quando a água

se levanta sobre as bocas
dos animais

esta impressão apenas digital
de nenhum sopro,
o liso, limpo silêncio, o frívolo,
o estremecer dos flancos na brancura.

António Franco Alexandre, A Pequena Face

Poetas-filósofos: António Franco Alexandre (3)

a rectidão da água; o crescimento
das avenidas, ao anoitecer, sob a nua
vibração dos faróis;

o laço, mesmo, das portas só
entreabertas, onde a luz
silenciosa se demora;

são memórias, decerto, de um anterior
esquecimento, uma inocente
adiga das coisas,

como os corpos calados, abandonados
na véspera da guerra, o teu
jeito para

o desalinho branco das palavras,
altas as
asas de nuvens no clarão do céu

em vão rigor abrindo
o destinado enigma: assim
desconhecer-te cada dia mais

ausente de recados e colheitas,
em assustado bosque, em sombra
clareira,

ao risco dos rios frívolos descendo
seixos polidos, desinscritos,
imóveis movendo

a luz do dia;
a margem recortada, aonde vivem
ausentes e seguros, os luminosos

animais do inverno;
assim são na verdade os muros claros;
assim respira o tempo, a terra intensa.

António Franco Alexandre, A Pequena Face

Quarta-feira, Maio 06, 2009

Poetas-filósofos: Fernando Echevarría (2)


Fomos vendo, até aqui, quanto estes mortos
afastaram do mundo a sua vida.
A custo, e lentos, uns; enquanto os outros,
arrebatados, pela voragem vista,
se constelaram nessa matriz de estrondo
de onde a luz do silêncio assente à da harmonia.
Mas os primeiros, aqueles cujos corpos
amaram sua sombra conhecida,
esses agudizaram a experiência, o modo
de perscrutar as sebes e as silvas
de forma a discernir nelas o esforço
da quase resistência à despedida.
E neles estudamos o afastamento, o sono
que, de dentro, os prepara ao desapego, a vítimas
dessa gravitação que os condena todos
à tensão de sustentar-se em vida.

Fernando Echevarría, Sobre os Mortos

Erica Buettner - C´est Julien

Sábado, Maio 02, 2009

Poetas-filósofos: Fernando Echevarría


Reunidos à mesa da paciência
estudamos os vidros da melancolia.
E arrefecemos vendo-a
desembaciar-se cristalina,
e a mover-se esfera
nos cálculos por onde se analisa.
E por onde se ilumina a ciência
e lhe ilumina
os fundamentos, tão fundamente que erra,
se sateliza
e gravita à volta desta mesa
melancólica. Como se a paciência fosse uma luz maligna.

Fernando Echevarría, A Base e o Timbre

Terça-feira, Abril 28, 2009

"O companheiro", de Tereza Perazza

A Tereza escreveu um poema que, ao que parece, foi inspirado no último que escrevi, "A invenção da noite". Como o blogue dela está, por boas razões, com acesso restrito até Maio, aqui fica o seu texto. Obrigada, Tereza, por inventares mais noite :)

Apaixonante a idéia de que o outro salva.
O homem foi inventado para a esperança.
Que saiba nunca que é só: alienação que permite o caminhar.
Melhor a morte que o desamparo.

Fugindo da fragilidade por entre becos,
andando pela noite na procura de um teto no meio do céu escuro.

Em caminhos tortuosos, a construção é que faz o terreno fértil.
São pilares levantados ao ar, esperando que um dia
a areia ganhe contornos de cimento.

O companheiro é a noite, que mata e revive num só gole.
De mãos unidas rumo ao grito. Expurgação.
O som prolonga-se por ruas e não ressoa no travesseiro.

O negro é cúmplice que esconde os restos mortais e os espinhos,
e o dia seguinte é de fato outro dia para aqueles que dentro da noite fogem.
São os originais da espécie.

Tereza Perazza, em De Novo Portugal

Terça-feira, Abril 07, 2009

A entrevista de Clarice

Só agora descobri esta entrevista - a única - da Clarice Lispector em televisão. No Youtube aparece em 5 partes. Escolhi 2 delas para pôr aqui.
Tereza, tu que me iniciaste na leitura dos livros da Clarice, olha como ela, também na entrevista, nos desconcerta.



- Em que medida o trabalho de Clarice Lispector pode alterar a ordem das coisas?
- Não altera em nada… Eu escrevo sem a esperança de que o que eu escrevo altere alguma coisa… Não altera em nada…
- Então para quê continuar escrevendo?
- E eu sei?!... Porque, no fundo, a gente não está querendo alterar as coisas, a gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro, né?





É tão refrescante ouvir alguém dizer, de forma tão natural, “Eu não sei”:

- Você acredita que essa dificuldade [em relação à sua obra] é próprio apenas para algumas camadas de nosso tempo e com novas gerações ela será entendida de imediato?
- Não tenho a menor ideia… Eu sei que dantes ninguém me entendia, agora me entendem.
- A que é que você atribui isso?
- Eu acho que tudo mudou, porque eu não mudei não. Que eu saiba, eu não fiz concessões.
- Mas o que teria mudado nas pessoas que as levasse a compreender o seu trabalho?
- Eu realmente não sei! É uma pergunta que eu faço a você, porque eu não sei responder.
(…)
- Qual você acha que deve ser o perfil médio do seu leitor?
- Sabe que eu não sei…
- Não tem ideia?
- Não
(…)
- Na sua formação como escritora, quais aqueles escritores que você sente que realmente influenciaram, que marcaram?
- Eu não sei realmente, porque eu misturei tudo… Eu lia romance para mocinha, livro cor-de-rosa, misturado com Dostoievski… Eu escolhia os livros pelos títulos…

A invenção da noite

Inventamos a noite porque não há noite bastante
que nos adormeça,
nem teia que nos enrede na absoluta lucidez
do último minuto.

Como queríamos lá estar, bem presos
nos fios de seda,
imóveis
resignados
carne-exposta,
a esperar o fim
do tiquetaquear estridente do relógio
e a culpar o sorriso diabólico da aranha.

É quando a noite se estende e nós voltamos a
inventá-la
que desafiamos o tempo.
Montamos os vários palcos do duelo
Que tal um toque vintage na decoração, madame?
arquitectamos as teias onde seremos as presas e,
pelo sim pelo não,
anestesiamo-nos ainda com um pouco mais de noite.
Por favor, mais dois dry martini, um para mim e outro para a senhora. Como é mesmo o seu nome?

Então somos só nós e ele.
A densa escuridão injecta-se nas veias como um sedativo,
e já poucos conseguem ver o movimento dos vultos.
Mais dois destes! Como que raio é que disseste
que te chamavas?
Ouve-se apenas: contidos gritos humanos,
o ranger de ponteiros
e um som agudo
de lâminas e guindastes.

Amanhecemos retalhados –
nós e o tempo –
entre o escuro das paredes nocturnas e
a claridade das janelas. Corpos mutilados e horas paradas.

Mas as horas logo voltam à vida
dos relógios que afinal nunca pararam
de contar;
só nós, consumida a noite,
ficamos desfeitos no palco
a refazer a topografia dos membros e do corpo
próprio.

Ainda hoje,
à mesma hora,
voltaremos a cortar os pulsos
porque a noite não nos adormecerá.

Boa noite… Não se quer sentar e oferecer-me uma bebida?

Segunda-feira, Março 16, 2009

Habitar Herberto

Imagem: Carla Salgueiro, via Olhares.com


"(…) um poema é a melhor crítica a um poema (…)" *


estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela
*
* Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo

Prendo na mão o teu hálito
quente e já a minha pele não resiste à
combustão iniciática.
Hoje é um dia claro e quieto. As bocas
descansam numa respiração branca
imperturbada
e só o teu hálito
persiste no labor das chamas,
no cantante ofício de forjar as palavras
que me pões a arder nas linhas da mão
como um destino.

Laranja, pêra, madeira, luz, cabelo, fogo, ar.
Substantivo.
Língua.

Ardem-me nos olhos e nos contornos
inflamáveis das coisas
que carregam o fogo.
Cabelo. Madeira.
Ainda há pouco o meu cabelo era só
um punhado de fios castanhos,
sem temperatura e sem elemento.
Agora tenho madeira quente a
estalar nele. Cabelo de primeira fêmea.
Leio-te fogo e logo o dia branco
irrompe em chamas.
Tudo é consumido no teu substantivo –
fêmea, macho, calendário.
A matéria ateada é uma constelação de astros
em brasa.

Dedos, boca, umbigo, dorso, mênstruo, púbis, flancos.
Língua.

Sinto a laranja na tua respiração.
Aperto-a na palma da mão e
refaço-a na boca. Escorre-me o sumo pelo
queixo, pelos braços, pelo ventre.
Flancos. Mênstruo.
O meu útero incendiado, a
urgência menstrual.
E a tua língua a explodir-me
no centro do corpo.


Sexta-feira, Março 13, 2009


estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo



Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo

Segunda-feira, Março 09, 2009

É o dia

É hoje! No Youtube pode já ver-se o vídeo de uma das novas músicas. Pelo tipo de rima, pelas onomatopeias e pelo ritmo da música facilmente se descobre que esta é do Sérgio Godinho.
Para além deste renascimento criativo, o encanto de ver uma Cristina gravidíssima.