Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010

Cràse nº1

Cràse nº 1 - Fevereiro 2010

A Cràse (http://craseliteraria.blogspot.com/) é uma revista de literatura emergente dirigida por Luís Felício, Nuno Brito e Rober Diaz. No seu nº 1, acabado de sair, dedica-se simultaneamente à poesia e ao conto.

Livrarias pontos de venda oficiais da Cràse:

Livraria Poetria
Rua das Oliveiras, 70 r/c – loja 12, Porto
t. 222 023 071

Livraria Trama
Rua São Filipe Nery 25B
1250-225 Lisboa
T. 21 3888257

Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010

"Vertigo"

A análise que Zizek faz de Vertigo, de Alfred Hitchcock:

“A ideia da mulher fatal possui-nos por completo. Afinal, essa imagem, a imagem fascinante da mulher fatal, representa a morte. O fascínio da beleza é sempre o véu que encobre um pesadelo. Como a ideia de uma criatura fascinante na qual, se nos aproximarmos muito, vemos podridão e vermes por todo lugar.
O maior dos abismos não é um abismo físico, mas o abismo das profundezas de uma outra pessoa. É aquilo que os filósofos descrevem como a noite do mundo. Quando olhamos para uma pessoa, o que vemos é o abismo dentro dos seus olhos. É essa é a verdadeira espiral que nos arrasta para dentro de dela.

Scottie, sozinho, destruído, não consegue esquecê-la (Madeleine, a misteriosa mulher por quem se apaixonou). Ele deambula pela cidade à procura de uma mulher parecida e descobre uma rapariga simples, comum, até mesmo vulgar. (…) A rapariga recém encontrada parece e age como Madeleine, a bela fatal. Descobrimos que ela é Madeleine. Ficamos a saber que o amigo de Scottie, que contratou Scottie, também contratou essa mulher, Judy, para interpretar Madeleine numa trama diabólica para matar a Madeleine real, sua esposa, e ficar com sua fortuna. (...) Temos ali a identidade de Madeleine, ou melhor, de Judy em toda a sua tensão trágica.

Scottie fornece o fundo sombrio para o fascinante perfil de Madeleine no restaurante Ernie. Vemos Scottie envergonhado, temeroso de olhá-la directamente, como se estivesse a ver a substância de seus sonhos, mais real para ele, de certa forma, do que a realidade da mulher que está atrás de si.
Um sujeito é algo parcial, uma face, algo que vemos. Atrás dele, há um vazio, um nada. E claro que nós espontaneamente tendemos a preencher esse nada com as nossas fantasias sobre a riqueza da personalidade humana, etc.

Confrontar a subjectividade significa confrontar a feminilidade. A mulher é o sujeito. A masculinidade é uma farsa. A masculinidade é uma fuga da dimensão de pesadelo, radical e aterradora da subjectividade.
(…) Quando Judy, vestida mais uma vez como Madeleine, atravessa a porta, é como se a fantasia se realizasse. E temos, é claro, um nome perfeito para uma fantasia realizada: "pesadelo". A fantasia realizada… O que isso quer dizer? Sem dúvida, ela é sempre sustentada por uma violência extrema. A violência, no caso de Scottie, é a modelagem brutal de Judy em Madeleine. É verdadeiramente um processo de mortificação, que também é a mortificação do desejo da mulher. Como se, para tê-la, para desejá-la, para ter relações sexuais com ela, Scottie tivesse que mortificá-la, transformá-la numa mulher morta. (…) Scottie não está realmente fascinado por ela, mas por toda a cena, pela encenação. Ele olha em volta, conferindo se as coordenadas fantasmáticas estão realmente ali. Neste ponto, quando a realidade se encaixa completamente na fantasia, Scottie está finalmente pronto para consumar a tão adiada relação sexual. O resultado dessa violência é a coordenação perfeita entre fantasia e realidade. Uma espécie de curto-circuito directo.”

The Pervert´s Guide to Cinema

A leitura de Slavoj Zizek de alguns dos mais marcantes momentos do cinema à luz da psicanálise.

Domingo, Janeiro 10, 2010

Mostra Jovens Criadores'09


Nos próximos dias 15 e 16 (sexta e sábado), terá lugar a 13ª Mostra Jovens Criadores em Évora e Portel. Esta Mostra apresenta 62 projectos seleccionados nas áreas de Artes Digitais, Artes Plásticas, Design de Equipamento, Design Gráfico, Fotografia, Ilustração, Joalharia, Vídeo, Moda, Dança e Literatura. As entradas são gratuitas e abertas ao público.
Todas as informações sobre a iniciativa e sobre o programa aqui e aqui. Alguns poemas deste blogue e eu estaremos por lá.

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Leituras do feriado (3)

a arte do retrato, a natureza das palavras
o corpo, que as ficções habitam
como um recinto mal iluminado, aberto
sobre a noite de luzes rectilíneas, longe,
descrevendo o silêncio e, dentro do silêncio,
a sem-memória súbita de nunca;

o sentimento penetrável, embrulhado
em algumas imagens, receio, sempre as mesmas,
uma estrada, uma estrela, as arestas do frio,
a vulgar aventura de uma esquina, quando
o infinito pudor os descobre, despidos
de qualquer comoção ou despedida,

minuciosos são os mapas, terras
onde jamais viajas, entregue a essas
razões inúteis que te deste,
a gelatina branca das palavras, o retrato
mal concebido de um ser extraterrestre,
a brandura de nada ter sentido.

António Franco Alexandre, Poemas

Leituras do feriado (2)


Era isto que o Herberto publicava no ano em que eu nascia:

Todos os Dedos da Mão

(...)
Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive - tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso - estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou à mão
ao gesto
amassando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
- o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro


Herberto Helder, A Cabeça Entre as Mãos

Leituras do feriado (1)

Como podemos esperar.
Aguardar o que nossas mãos possam reter.
Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas
têm já o estado do vento
o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

Aguardar mais aguardar nada
quanto mais se repete uma palavra
«estou sentado virado para a parede desta casa»
baixo, mais baixo ainda,
«estou sentado virado para a parede desta casa».

Fazer que não haja sucedido o sucedido
é homenagem prestada.
O prazer de sentir chegar as coisas
o riso sob a chuva
o frio que faz. Aqui

como podemos esperar uma noite de lua e vento?

João Miguel Fernandes Jorge, Direito de Mentir

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Eterno Retorno


"Bomba Relógio" - Letra e Música: Sérgio Godinho


"Longe do Sul" - Letra: Miguel Farias / Música: Carlos Bica


"Eterno Retorno" - Letra: Hélia Correia / Música: Janita Salomé

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Ninguém se aproxima de ninguém se não for num murmúrio,
entre flores altas: camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue - as veias da garganta contra a boca.

Herberto Helder, Poesia Toda

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Soulsavers, Broken (2009)


Voz: Mark Lanegan & Mike Patton


Voz: Mark Lanegan

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

A mim o que me apetece é dançar

O guarda-fatos do mar entreaberto para a noite
pergunta-me se amo
e é toda uma paisagem de arcos flamejantes
deslocando-se a oeste
o castelo perdido entre duas visões
o cavaleiro descendo a falésia
depois de tantos anos tantas fábricas tantos
arquitectos de amor fitando o espaço

no alto das arquibancadas o rapaz
que lindo
encarna a vitoriosa lividez do dia

A mim porém o que me apetece é dançar
Dar um salto comigo
de forma a que não me evole feito fumo
nem resvale às profundas feito nada

Isso
o reino de Pràtazul
a linha de água
que suporta e separa e contém os dois mundos
e ondula

Mário Cesariny, A Cidade Queimada

Sábado, Outubro 17, 2009

Gatos Comunicantes

Mário Cesariny. [Poema], 1964 Jun., Paris, [a] Vieira da Silva, [s.l.]. [Autógrafa]

POEMA
Para a Maria Helena

Alto como a presença verdadeira
dos namorados descendo a falésia
este rio trazido à torre de Saint Jacques
punhal cravado para cima sobre um chão que fica
à espera de chegar ao outro mundo de noite
já que de dia não vem não vem (Deus como os mais)
este rio deitado construído ensonado
trazido aqui por Descartes daqui levado por Stendhal
não vai dar nem sequer para uma groselha comigo
quanto mais para o encontro com Deus que é católico
e tem mais vácuo nos dentes que a baleia nas tripas

No entanto disse alto e verdadeiro amor

É que isto ainda dá horas ainda é tempo de querer
ainda é meia-noite as árvores ainda
não destruíram tudo o que a este dia respeita
barco ébrio de tanta torre bebida
escuna medrosa em cada vigia ao longe
navio dos amantes que ainda espreitam para dentro de um ouvido o que
a passagem da terra faz ao mar, lá em baixo
barco homem que avança pelos telhados e se ri à hipótese de haver chão,
lá em baixo
e risca lentamente o ar com o braço
numa forma de música de concerto

Paris, Junho 64
Mário
(Este será o «Poema III», de A Cidade Queimada.)

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Mariana Aydar, Palavras Não Falam

É o primeiro vídeo do álbum "Peixes Pássaros Pessoas" da Mariana Aydar, referente ao tema “Palavras Não Falam”. O branco que serena os olhos é o de Salar, o maior deserto de sal do mundo, na Bolívia.


Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Prolegómenos a todo o ano lectivo futuro


- A escola fica dentro de uma quinta ou, antes, é a própria quinta. Ao seu redor, estende-se uma vasta paisagem de terra, animais, tractores e árvores de fruto. Quem já lá trabalha há uns anos diz que às vezes nem sente que está ali a trabalho e garante que a visão e os cheiros rurais funcionam como autêntica terapia de relaxamento, capaz de bater quaisquer massagens shiatsu, águas termais ou pedras quentes.

- A entrada na escola permite-nos experimentar verdadeiras epifanias: a imagem do nosso carro estacionado ao lado de uma máquina agrícola antiga, a cabeça do cavalo que quase nos toca quando saímos do carro, o cheiro da cavalariça, o inesperado mugir dos bois…

- O senhor da reprografia é uma espécie de máquina multifunções. Atende o telefone, tira fotocópias, trata das requisições de material, é o guardião dos livros de sumários e das componentes não-lectivas, trata das senhas de almoço… O segredo deve estar no seu nome, que, não fora o segundo apelido, seria igualzinho ao de uma corajosa personagem histórica de Portugal.
Para além da sua prontidão, também já pude perceber o seu talento para escalas decrescentes: “Ah, vai ter esta turma? É boazita! Pronto, não é má… Ah, espere, tem lá os alunos x e y! Hiii, eles são terríveis, já me tenho chateado com eles. Olhe, podia sempre ser pior…”

- É-nos explicado que há portas de sala de aula sem placa de identificação porque os alunos as arrancaram no final do ano lectivo passado.

- Informam-nos que os professores podem munir-se do seu saco plástico e fazer a sua apanha da fruta privada.

- Informam-nos que as vindimas serão feitas pelas turmas de agricultura segundo uma escala, pelo que, se a turma a que se for dar aula estiver no seu horário de apanha da uva, deve o professor equipar-se com umas galochas e acompanhar os pupilos.

E, com tudo isto, as aulas começam daqui a pouco…

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

He's back

A (bela) notícia do dia na blogosfera: Pedro Mexia e a sua viciante escrita agridoce estão de volta no novíssimo blogue Lei Seca.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

Olha que dois...

Caetano e Chico:







Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Olha que duas...

Mariana Aydar e Mayra Andrade:










Quinta-feira, Agosto 06, 2009

O hipocentro da loucura



Passo horas a esta janela
a ver o mar.
Vou todos os dias
para a frente dela
e fico à espera que surjam imagens a cores
que parecem quase tão reais
quanto as da televisão.
Já aconteceu a janela avariar
porque insisti em abri-la.
Ficou dois dias sem dar imagens,
baça de todo,
diz o técnico que foi da corrente de ar.
Nesses dias, tentei retomar o
velho ofício da renda, mas desconfio
que devem ter inventado outra maneira de contar
porque nunca mais acertei
a matemática do caseado.
Até a renda já deve ser feita pelos computadores.
Acabei por ensaiar alguns passos de dança
ao som da sonata de Shubert que
às vezes toca na minha cabeça e
um sorriso como o da menina
que me olha do alto da cristaleira.
Ainda estou para saber como apareceu ali
dentro daquela moldura
com aquele vestido de chiffon
e os olhos complacentes de amêndoa.
Desconfio que foi o gato que a trouxe da rua
para me fazer companhia quando ele
parte em viagens de negócios.

Hoje está amarelo porque choveu.
Quando o tempo está seco e há algum sol
fica salmão, às vezes vermelho,
mas nunca azul,
nunca o mar está azul como dizem.
Deve ser um daqueles mitos que nem
a tecnologia conseguiu derrubar.
Agora que já não chove, vê-se
o verde azeitona da areia ainda molhada
e algumas pessoas a voar
com as gaivotas.
Dá gosto ver o modo como elas
aterram suavemente na areia e
se curvam a oferecer
o dorso e as asas.

Chamam-me louca.
Do lado de lá da janela
eu sou a interrupção na ordem do mundo,
a ridícula imagem virtual projectada
privada de gravidade e de substrato.
Quando ainda tinha paciência
para os livros, li algures
que a loucura é o exercício
da extrema lucidez.
O mar que vejo por esta janela,
e que é amarelo, às vezes salmão
ou vermelho,
é tão real como um qualquer mar azul
sugerido aos olhos por um truque
de reflexos e de luz.
As imagens que estão em movimento
que mais são
senão fotografias emolduradas
pelas qualidades dos nossos olhos?
Por que sons posso afirmar a sonata
senão por aqueles que ouço?
E o que posso dizer do gato
quando não o vejo?

Terça-feira, Julho 14, 2009

Sugestão da casa...


Two Days in Paris

Ainda Rodrigo Leão

É só para dizer que o cd finalmente já cá canta. E, já agora, aproveito para passar um blush neste blogue com duas provas da genialidade do álbum:


Sábado, Julho 04, 2009

"A Mãe", de Rodrigo Leão

Saiu no dia 22 de Junho. Mais uma obra de arte, composta por 17 músicas inéditas, daquele que Almodóvar, muito justamente, considera "um dos mais inspirados compositores do mundo". Mais informações aqui.

Domingo, Junho 28, 2009

Deolinda e Cristina Branco no Castelo de S. Jorge

Os Deolinda estiveram na Festa do Fado, que decorreu, como sempre, no Castelo de S. Jorge, e convidaram a Cristina Branco. Foi no passado dia 20 que este felicíssimo encontro aconteceu. Parece que o objectivo era mostrar alternativas ao fado tradicional. Felizmente há o Youtube:

Ana Bacalhau e Cristina Branco cantam o tema "Margarida", que integra o último álbum da Cristina:


Cantam "Fado Castigo", um tema dos Deolinda:


Cristina Branco canta "Lisboa não é a Cidade Perfeita", uma linda música dos Deolinda que cai como uma luva na sua voz:

Domingo, Junho 21, 2009

A invenção da noite II


Apertamos a música no corpo,
sufocamos acordes entre as ancas e
os tendões
e atravessamos a noite dos insectos.

Frágeis contornos de luz
resistem no palco,
a desenhar a noite e o espaço.
Ao centro, a doce cantora ondula
na sua liquidez subversiva e
inventa os tons impossíveis de sereia
que nos enlaçam as asas.
Entre ela e nós, uma ladeira de luz impura,
um jogo perverso de voz que se entrega
como virgem no seu canto inicial
e nos consome inteiros,
asas-nojo-quitina.

Rendemo-nos à tessitura e ao compasso
da sedução felina:
o apelo trágico das notas graves;
a elevação do corpo numa escala sustenida.
E assim,
entre a noite que os sons inventam
e a luz que nos sustém,
improvisamos um voo difuso de
insectos de olhos feridos.
Pequenos bichos amelódicos,
em distorção e em contratempo.

Sábado, Junho 20, 2009

The Dying Animal / Elegy




Elegy (2008), baseado na novela The Dying Animal (2001), de Philip Roth.

São o filme e o livro mais bonitos e penetrantes que vi e que li nos últimos tempos.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

We sell Vatican


À porta de uma loja de "souvenirs", junto ao Vaticano. Possivelmente a tónica do letreiro está no "euro"... Seja como for, as duas primeiras linhas é que dizem uma grande verdade. E quem diz a verdade...

Terça-feira, Maio 19, 2009

Músculo domesticável

Eu e a Tereza lançámo-nos ao desafio de fazer um poema a duas mãos - a minha, dextra, e a dela, canhota :). O resultado é esta produção intercontinental, que mistura português de Portugal e português do Brasil, pinta, tira, frankenstein e filho pródigo:


Leopardo, águia ou zebra.
Três pintas a mais ou duas tiras a menos
de nada interferem no desejo,
contanto que o abraço possua
o branco envolvente dos coelhos.

Pinta é contingência redonda que
não altera a geometria do sangue
nem o calor do pêlo;
tira é traço abstracto,
vestígio da cálida energia que perpassa a derme,
das bolhas que implodem nos órgãos
e soltam pelos ares a exalação afetuosa.

Todo o bicho é domesticável e sabe
dar a si contornos dormentes.
O mesmo que há pouco figurava
num quadro dantesco,
no papel de predador sádico cravado na presa,
adormece agora no langor do colo quente
e do fogo lento da lareira.

É o verde da manta e o laranja que consome
a madeira que lhe entorpecem
os tendões e as orelhas.
Mas o branco,
o exacto branco dos coelhos,
é a união de todas as cores.
E se é felpudo ao toque é por causa das nódoas
que oscilam sob as mãos
e as seduzem num caminho a trilhar.

Não há pinta nem tira num abraço branco,
mas uma explosão com todas as cores
que aperta o corpo
em rugas e põe tira na pinta
e pinta na nódoa.

Sábado, Maio 16, 2009

Minguante nº 14



Acaba de sair a Miguante nº 14 com o tema "fim". Com ele, a revista entra numa "suspensão criogénica", que esperamos que seja breve. Para aceder aos textos, cliquem na imagem.

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Poetas-filósofos: António Franco Alexandre (4)

há uma terra dentro das palavras,
o erro musical.
saberás que a inguagem
não começou ainda

o seu passo perdulário,
não há, no mundo, modos
de dizer o movimento e o imóvel,
o surgir repetido, e quando a água

se levanta sobre as bocas
dos animais

esta impressão apenas digital
de nenhum sopro,
o liso, limpo silêncio, o frívolo,
o estremecer dos flancos na brancura.

António Franco Alexandre, A Pequena Face

Poetas-filósofos: António Franco Alexandre (3)

a rectidão da água; o crescimento
das avenidas, ao anoitecer, sob a nua
vibração dos faróis;

o laço, mesmo, das portas só
entreabertas, onde a luz
silenciosa se demora;

são memórias, decerto, de um anterior
esquecimento, uma inocente
adiga das coisas,

como os corpos calados, abandonados
na véspera da guerra, o teu
jeito para

o desalinho branco das palavras,
altas as
asas de nuvens no clarão do céu

em vão rigor abrindo
o destinado enigma: assim
desconhecer-te cada dia mais

ausente de recados e colheitas,
em assustado bosque, em sombra
clareira,

ao risco dos rios frívolos descendo
seixos polidos, desinscritos,
imóveis movendo

a luz do dia;
a margem recortada, aonde vivem
ausentes e seguros, os luminosos

animais do inverno;
assim são na verdade os muros claros;
assim respira o tempo, a terra intensa.

António Franco Alexandre, A Pequena Face

Quarta-feira, Maio 06, 2009

Poetas-filósofos: Fernando Echevarría (2)


Fomos vendo, até aqui, quanto estes mortos
afastaram do mundo a sua vida.
A custo, e lentos, uns; enquanto os outros,
arrebatados, pela voragem vista,
se constelaram nessa matriz de estrondo
de onde a luz do silêncio assente à da harmonia.
Mas os primeiros, aqueles cujos corpos
amaram sua sombra conhecida,
esses agudizaram a experiência, o modo
de perscrutar as sebes e as silvas
de forma a discernir nelas o esforço
da quase resistência à despedida.
E neles estudamos o afastamento, o sono
que, de dentro, os prepara ao desapego, a vítimas
dessa gravitação que os condena todos
à tensão de sustentar-se em vida.

Fernando Echevarría, Sobre os Mortos