terça-feira, outubro 25, 2005

Pseudonímia

Todo o exercício de escrita, se levado a sério, é auto-referencial, na medida em que, embora persiga o que não se domina, e, nesse sentido, é transcendente, remete para a leitura do mundo ou para o imaginário de um determinado sujeito. Sendo um exercício de desnudamento, ao autor resta a possibilidade de optar por usar o seu nome próprio, fazer uso de um pseudónimo ou manter-se no absoluto anonimato. Tendo escolhido a segunda opção, assinando com o pseudónimo dissonantia (lat.: desafinação de sons, falta de harmonia, desproporção, discordância), e certamente sugestionada pela leitura de alguns artigos sobre Kierkegaard bem como de um excerto do seu Post-Scriptum que justifica a sua opção pelos pseudónimos, sinto-me quase na obrigação de escrever algumas palavras acerca da pseudonímia.

“Pseudónimo” significa “nome falso”, por oposição ao nome próprio do autor. Nome próprio e pseudónimo surgem, assim, como pólos de um binómio que se apresenta como mais uma variação da velha oposição entre o verdadeiro e o falso, o real e o ilusório. Assim, a questão que importa colocar parece ser, antes de mais, a seguinte: poderão tais categorias aplicar-se ao sujeito que cria, neste caso que escreve? Concebendo a escrita como um meio ou um veículo para captar o mundo e o eu de uma forma mais ampla – não necessariamente mais verdadeira – através do ensaio de modos possíveis de ser (do mundo e do eu), ao escrever o sujeito furta-se a tal tipo de categorização, mantendo-se num espaço que está aquém e além da oposição verdadeiro/falso.
Sendo assim, poder-se-á ainda considerar o nome próprio como a marca do verdadeiro eu e o pseudónimo como a de um eu falso, absolutamente fictício? Uma resposta afirmativa suporá necessariamente que podemos distinguir perfeitamente em nós um eu “claro e distinto”, uno e sem frechas, à maneira da tradição reflexiva cartesiana. Pois sou já demasiado contemporânea para poder admiti-lo. Para um sujeito assim, o acto de escrever não implicaria angústia, pois seria meramente descritivo. Pelo contrário, penso a escrita, principalmente a literatura no seu sentido restrito, como uma tentativa magoada de encontrar um sentido ou uma harmonia possível entre um mundo polimórfico e um eu que, sendo um ser cindido, tecido por várias vozes, forja desesperadamente uma identidade. Como distinguir, nesse exercício, a verdade e a mentira? Perante a dificuldade de tal distinção, parece que o pseudónimo não pode sugerir uma falsidade que extrapole a implicada no signo utilizado pelo autor, ou seja, é falso apenas na medida em que não corresponde ao seu nome efectivo. Embora falso nesse sentido, o pseudónimo tem um corpus que irrompe do autor e se configura no seu trabalho. Pergunta-se agora: na pluralidade de vozes nos atravessam, conseguiremos distinguir o eu verdadeiro? Não seremos, antes, vários eus, igualmente verdadeiros, que vêm alternadamente à tona em função de circunstâncias, espaços, tempos e companhias? Não acredito, portanto, que alguém diga mais de si ou se exprima melhor num texto que assine com o seu nome próprio do que noutro em que, querendo representar uma personagem, o faça com um outro nome que não o seu. Neste sentido, deverá pensar-se o pseudónimo não como um desvio em relação à sinceridade, mas, antes, como a impossibilidade de uma sinceridade total.
Assim sendo, qual poderá ser então a função do pseudónimo? Não sendo a de permitir a interpretação de um papel falso, possivelmente será a de dar voz a um dos fragmentos do eu sob a forma de uma terceira pessoa, guardando-se a distância necessária em relação aos constrangimentos daquele que identificamos como o eu (na primeira pessoa). Não se trata de uma deslocação para o domínio do falso, da não sinceridade, mas para o único lugar onde o escrever é possível: o centro da polifonia das vozes, o coração da dissonância.
Imagem: A máscara, René Magritte

2 comentários:

Anónimo disse...

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